sábado, 5 de abril de 2014

"VINHAS DA IRA"

"VINHAS DA IRA"

Caminhava só pelas vinhas da ira
Solidão de um caminho escuro
Encontrei as uvas doces de morangueiro
Entrei numa velha adega
Adega esta onde estava um velho barril
Perdido e talvez esquecido, vazio
Queria tanto tentar fazer
Fazer o vinho dos mortos
Enterrá-lo na terra húmida da velha adega
Rezei, rezei enquanto trabalhava
Não queria mais andar
Era difícil ver na noite escura sem luar
Transformei-me no vinho que fiz
Deixei-me guiar pelo som das águas que corriam
No leito do rio passando debaixo da ponte
Que descia pelos montes e prados
Sobre as fragas, choupos
Matando a sede das aldeias
Inundando o chão
Fecundado as novas searas
As novas sementes
Tinha medo e quis enfrentar
Enfrentar o medo
Lavei a minha alma no leito do rio
Até todo medo evaporar-se
Só então, voltei para a vinha
Vinha da ira de todas as mágoas
De todas as sombra
Fiquei nua, sem pele, sem medo
Nadei à tona, no lagar onde fiz
Fiz o vinho dos mortos, vinho de sabor
Amargo, forte e de doce paladar.

Isabel Morais Ribeiro Fonseca