quarta-feira, 29 de abril de 2015

FIGUEIRA DA VIDA

FIGUEIRA DA VIDA

Eu nada sou, para lá desta dor
Recolho os pedaços, fio das lembranças
Gritos na alma dos meus contos
Que são quadras de amor, de dor
Recomeço na figueira da vida
Já não tenho tempo para ilusões
Sei que a figueira que plantei
Olha-me entre as ramagens das suas folhas
Observa-me nesta minha quietude
Quietude onde agradeço todas as decepções
Em cada dificuldade e nos tombos dados
Que tive ao longo da minha vida
Sei que a figueira que plantei
Alberga agora um ninho de pássaros
Que as folhas veem-me entre os livros
Desfolham-se nas asas em lágrimas de pedra
Resguardo sem destino de sol e chuva
Envolto de nevoeiro nas palavras
Orvalho nos lábios das folhas da figueira
Que plantei com o recomeço sem ilusões.
 
Isabel Morais Ribeiro Fonseca

quarta-feira, 22 de abril de 2015

SILÊNCIO

SILÊNCIO

Eu conheci o silêncio
O silêncio da cidade
O silêncio da nossa vida
O silêncio da serra, do monte
O silêncio do inferno
O silêncio da escuridão
O silêncio das profundezas
O silêncio do mar e da sua brisa
O silêncio das tempestades
O silêncio dos raios de sol
O silêncio dos teus olhos
O silêncio do nosso quarto
O silêncio da tua rouca voz
O silêncio do nosso tempo
O silêncio das folhas do vento
Eu conheci o nosso amado silêncio.
 
Isabel Morais Ribeiro Fonseca

sexta-feira, 17 de abril de 2015

"VERMELHO"

"VERMELHO"

Vermelho é o meu desespero, coberto de nada
O vermelho é meu desencantado, vestida de noite
Fecho a janela, abraço-te no meu leito.
Amo-te com toda a paixão do meu coração
Beijo-te no vermelho dos teus lábios
No vermelho corre forte nas minhas mãos

Os teus abraços são mais fortes que os meus
Doce era o vermelho que amei no teu corpo
Suave quando o meu corpo começou a entardecer
Desmaiei com os teus olhos, nos meus
Quando os teus devolveram-me um vermelho de fogo
De vermelho me visto nesta via sacra entre o ser e o nada
Entre o viver e o não viver, o vermelho é e será
A marca de amor que ficara para sempre, em ti, em nos.

Isabel Morais Ribeiro Fonseca

quinta-feira, 9 de abril de 2015

PASSEIO NO INVERNO

PASSEIO NO INVERNO

Passeio pelos quintais do nosso inverno
Procuro os sinais do último outono
Pegadas de uma quimera tola
Guardada a sete chaves no peito
Talvez esquecida na primavera
Folhas caídas, raios de luz guardados
No tão nosso esquecimento, chão seco
De tempos idos, nas desilusões desfeitas
Passos fracos, tímidos pelo vento frio
Doce inverno, destes passeios pelos quintais
Momentos tão nossos, vagam as lembranças
Foram tantas luas de felicidade, desenhadas de cores
Foram tantos dias de alegria, noites quentes
Longas de calor, amam-se com um simples olhar
Amavam-se nos quintais do longo inverno
Onde ficavam à espera que a primavera
Voltasse a florir outra vez, no recomeço do passeio.
 
Isabel Morais Ribeiro Fonseca