quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

CONTO DE AMOR À ESPERA


CONTO DE AMOR À ESPERA

Nos devaneios de um simples encontro
Lágrimas de raiva já não contidas
Mãos trêmulas passadas pelo cabelo
Deixava a mente vagar nas lembranças
Dos momentos já passados, dos sorrisos
E das caricias que trocaram em segredo
Brincadeiras compartilhadas tantas vezes
Deixa a mente levitar nas memórias
Daqueles momentos que já não voltam mais
Procura em segredo reviver aquele doce sabor
Com o desejo de amar, sem nunca jamais perder


Ela esperava-o como sempre junto às portas de ferro
Da sua casa, não importava se fazia chuva
Se fazia frio, se fazia sol, o seu corpo inquietava-se
Se ele tardava e quando ele aparecia assim surgido
Do nada, o sorriso dela tinha a capacidade de
Iluminar o breu da noite mais invernosa
Era impensável não darem aquele beijo tão
Demorado, em que os fazia sentirem-se já donos
Um do outro, de mão dada seguiam pela rua fora
Por entre juras de amor, tendo como cúmplices
A calçada de pedra que gemia - gemia
Na passagem dos dois apaixonados ao amanhecer


 No regresso, ele deixava-a contra vontade
Junto à porta de ferro, dando-lhe aquele beijo forte
Que só os dois conseguiam sentir e entender
Pedia-lhe um aberto e sincero sorriso
E murmurava-lhe palavras de amor eterno
Ele não queria regressar, queria ficar ali amando-a
Com o seu olhar, a dizer-lhe palavras loucas
A passar a mão atrevida pelo seu corpo
Ela dava-lhe um sorriso pedido para ficar
Mas a razão falava mais alto, é a vida
Separavam-se com a promessa do reencontro
No dia seguinte, no outro dia e no outro a seguir


 

Ela está agora encostada à porta de ferro
Sozinha com a cumplicidade das pedras da calçada
Que gemem, gemem em silêncio
Já se contam no seu rosto algumas rugas
Que o tempo foi deixando, ele não perdoa
O corpo inquieta-se sabe que ele já não vem
Observa as pedras velhas, gastas, sofridas
Deviam dizer-lhe por onde anda o seu amor
Mas não obtém resposta, olha para dentro de si
E admira a mulher em que se transformou
Sorri sem pensar, que sorriso, se ele a pudesse ver
Veria a mulher simples e apaixonada que perdeu.


Isabel Morais Ribeiro Fonseca